Category Archives: Deontologia e Ética

Jornalismo com bolinha vermelha

O espanhol Mediterráneo Digital, que se define como «independente e politicamente incorrecto», publicou, na sua página oficial no facebook, um anúncio de emprego, no mínimo, original para o sector da informação.

Os critérios para o recrutamento do título, que publica edições em Madrid e na Catalunha, são, maioritariamente (ou exclusivamente),….estéticos!

«Eres joven? ¿Eres periodista? Te consideras sexy? Te gusta el deporte? Ponte en contacto con Mediterráneo Digital! Abrimos #CastingReporteras».

Choveram acusações de sexismo e machismo, ainda que, nas 48 horas seguintes à publicação do edital, tenham caído, na caixa de correio do Mediterráneo Digital, mais de 100 candidaturas. Um verdadeiro caso de estudo de abordagem à profissão.

Vanessa Blanco - Nueva reportera de Mediterráneo Digital

Via Clases de Periodismo

Um Oscar para a Rita

Dura praticamente desde o início do ano uma espécie de guerra entre o provedor do Leitor do Diário de Notícias, Oscar Mascarenhas, e a jornalista da RTP Rita Marrafa de Carvalho.

A estória é tão surreal que, não fosse verdade, até pareceria ficção. A Rita expôs, no facebook, um episódio que envolveu uma ida a Belém, a filha e os guardas do Palácio. O provedor não gostou, torceu o nariz e carregou na jornalista na página semanal que assina no DN. A semana seguinte trouxe protestos nas redes sociais, indirectas mais ou menos directas, e uma exclusão do círculo de amigos.

No fim-de-semana seguinte, Oscar Mascarenhas manteve a toada, novamente com a mira centrada na jornalista, num texto que transpira despeito por todos os poros. Hoje (finalmente) a Rita colocou o ponto final no assunto! Mesmo que o provedor volte ao tema, não há mais nada a acrescentar. É por isso que o Oscar (assim mesmo, sem acento!) vai para a Rita.

Disponível em: Direito de Resposta

Direitos, liberdades e garantias

Uma auditoria à violação do segredo de justiça, apresenta na última semana pela Procuradoria-Geral da República, sugere escutas e buscas domiciliárias a órgãos de comunicação social e jornalistas que dêem provimento a fugas de informação, prevendo-se, ainda, a suspensão da actividade como medida de penalização prevista.

Uma das (muitas) vozes que criticaram o documento, da autoria do procurador João Rato, pertence ao director do Diário de Notícias, João Marcelino, que dissertou sobre o tema em editorial.

«Quem leia este documento tem todo o direito a pensar que os jornalistas costumam assaltar os tribunais pela calada da noite, roubando documentos – e deve ser assim que costumam obter o dia, local e hora em que determinado cidadão vai ser detido e, por acusado, transportado para inquérito…»

Disponível em: O “segredo de justiça”

O malabarismo das pressões

O Banco Espírito Santo não gostou que o jornal I andasse a escarafunchar vários processos que envolvem altos quatros do grupo e reagiu de forma grosseira tentando lembrar que é um dos principais suportes dos jornais portugueses.

É mais que sabido que o mercado publicitário está em queda e que o I, desde a sua fundação, tem passado por sucessivas remodelações que levaram à mudança de mãos, no ano passado, e à dispensa recente de vários profissionais .

Apesar de estar e encarar um dos grandes clientes dos media portugueses, o I não se encolheu sustentando a sua posição com as responsabilidades editoriais que tem para com os leitores.

A escolha era simples: ou salvaguardavam-se algumas páginas de publicidade e atirava-se a «estória» para debaixo da secretária, ou prevalecia a ligação de confiança com que todos os dias compra o jornal.

Prevaleceu a segunda opção com óbvio prejuízo para as finanças da empresa. Ainda assim, manteve-se o eleitorado fiel. E é ele o principal activo de qualquer projecto de media.

A direcção do jornal i não se deixa intimidar com o poder económico e publicitário do BES e continuará a garantir o direito de informar e a acompanhar toda a informação que os seus jornalistas recolham com profissionalismo, isenção e respeito pelo nosso código deontológico

Nota da direcção do jornal I: O BES não pode esperar que os jornalistas deixem de exercer a sua profissão

Livros sobre ciberjornalismo

O blog Online Journalism reúne uma selecçao de livros sobre ciberjornalismo divididos em diversas categorias: base teórica, histórica e conceptual; prática do ciberjornalismo; segurança online; ética, distribuição, direito e empreendedorismo e multimedia.

Todos os exemplares estão disponíveis para compra online. Rigorosamente a não perder! Disponível aqui: An online journalism reading list

Plágio: a praga do jornalismo contemporâneo

Jornal Público, edição de Terça-feira, 24 de Setembro, de 2013

Jornal Público, edição de Terça-feira, 24 de Setembro, de 2013

Corte e costura

O Correio da Manhã transcreveu, nas suas duas edições (impressa e online), a entrevista exclusiva que Jorge Jesus concedeu à Benfica TV, apresentada por José Eduardo Moniz, e que o diário da Cofina identificou como sua.

Plágio, lapso ou procedimento comum no noticiário desportivo, o processo está longe de ser consensual.

Diário de Notícias, 6 de Julho de 2013, secção Media, página 43

Diário de Notícias, 6 de Julho de 2013, secção Media, página 43

Curso intensivo de jornalismo

A série Jornalistas (Reporters), transmitida em Portugal pelo AXN Black,  é um verdadeiro curso intensivo de jornalismo. Centrada no quotidiano de um canal de televisão e de um jornal (à moda antiga) parece ter, por trás, a orientação de alguém que passou muito tempo em redacções porque não deixa nada ao acaso: desde a figura do director, que vive emparedada entre o  semblante austero e a postura paternal com que dirige a redacção; passando pelos (bons) jornalistas à moda antiga, autênticos Sherlock Holmes em vias de extinção, envoltos em guerras constantes pelos melhores cargos; até aos estagiários cheios de ganas de triunfar, mas vazios de conteúdo.

Há ainda espaço os compadrios entre jornalistas e classe política, que tanto condicionam a agenda mediática, e para a aposta no digital, sem critério nem princípios informativos.

Rigorosamente a não perder.

Cadeia informativa do avesso

Leitura (elitista) sobre o aproveitamento que a assessoria de imprensa pode (e deve) retirar do enfraquecimento generalizado das redacções (ausência de memória, sentido crítico, etc…) para saltar para o topo da cadeia informativa.

“O assessor não deve ser visto como uma mera central telefónica e, acrescento, muito menos deve olhar-se como tal. Deve ser ele o primeiro agente a pensar a informação, esquadrinhando todos os possíveis ângulos de abordagem que sejam do interesse público. E digo do interesse público e não do interesse da organização para a qual trabalha, porque a primeira condição leva inevitavelmente à segunda e com resultados práticos bem mais sólidos”.

Disponível em: JORNALISTA, O ESPECIALISTA EM COISA NENHUMA

Futebol: informação ou entretenimento?

A TVI, televisão detentora dos direitos de transmissão da Liga dos Campeões, escalou, para o Manchester UnitedReal Madrid, uma equipa formada por dois comentadores, Pedro Barbosa e Dani (ambos ex-futebolistas), e um narrador, Pedro Ribeiro (animador da Rádio Comercial).

A questão em torno da equipa escalada para o jogo não se centra, como é obvio, na escolha das figuras encarregues de comentar o jogo, até porque são profundos conhecedores do fenómeno, mas na entrega do papel de narrador a um  não-jornalista que, poucas horas antes, num programa de rádio, aconselha a audiência a ser cliente da  TMN e a consumir  Kit Kat.

A situação é particularmente complexa se se tiver em linha de conta que, à semelhança do que acontece na imprensa, num relato de futebol, o narrador é uma espécie de primeiro filtro dos olhos do telespectador. É, por isso, uma função que exige rigor, distanciamento e isenção, até porque está umbilicalmente ligada a valores éticos e deontológicos fortes.

«O exercício da profissão de jornalista é incompatível com o desempenho de Funções de angariação, concepção ou apresentação de mensagens publicitárias».

Interessa, neste enquadramento, clarificar se a narração de um jogo de futebol, seja em rádio ou televisão, deve, ou não, constituir matéria de cariz informativa.

A questão, sublinhe-se, não é recente e tem origem na constituição das primeiras redacções em Portugal. À data, como é fácil imaginar, não se falava em jornalismo especializado, como se faz hoje, e o noticiário de desporto vivia, essencialmente, de colaborações externas, a maioria proveniente dos próprios desportistas que queriam divulgar os seus feitos individuais ou colectivos.

Sobretudo por isto, os profissionais que acompanhavam desporto não tinham lugar nas redacções, como as restantes editorias (política, economia,  etc.) , nem, tão pouco, eram considerados jornalistas. Limitavam-se a ser uma espécie de apêndices da redacção.

O paradigma, entretanto, alterou-se, mas o preconceito ainda permanece. Em menor dimensão, é certo, mas está longe de estar extinto. Para a mudança em muito contribuiu o papel que o futebol (a reboque dos clubes) foi conquistando na sociedade civil.

Tanto que, actualmente, quem tem futebol tem, automaticamente, números garantidos (vendas, audiências ou visitas). No entanto, esta massificação do noticiário desportivo acarretou consigo a responsabilidade de corresponder às exigências de uma audiência, normalmente entendida na matéria, e levou à especialização profunda dos jornalistas de desporto.

Até porque hoje um jogo de futebol é muito mais do que uma bola e onze jogadores: tem um enquadramento, equipas com identidades próprias, jogadores com uma história atrás de si, treinadores, evoluções tácticas e ligações comerciais. Tudo isto é demasiada informação para se considerar um mero produto de entretenimento.

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