Monthly Archives: October 2012

Crise nos media

As últimas semanas têm sido atribuladas para o sector dos media em Portugal: despedimentos no jornal Público, fecho de títulos do grupo Media Capital, cortes   suicidas no financiamento à Agência Lusa e (ainda) o fantasma da privatização da RTP.

Fica a visão de Miguel de Sousa Tavares.

MIGUEL SOUSA TAVARES ANALISA A CRISE NOS MEDIA – SIC NOTÍCIAS 

Debate à escala mundial

O último debate entre os dois candidatos à Casa Branca realizou-se na última madrugada e mereceu tratamento especial por parte das principais cadeias televisivas mundiais.

A discussão, moderada pelo jornalista Bob Schieffer, foi transmitida desde a Universidade Lynn, no Estado da Flórida, por Euronews, CNN, Sky News, BBC, Al Jazeera, France 24, TVE, Bloomberg, Rainews, TPA, Press TV, etc., etc., etc.

O frente-a-frente entre o presidente Barack Obama e o ex-governador de Massachusetts, Mitt Romney, entrou em Portugal através dos ecrãs da SIC Notícias (que até promoveu um pré-match com alguns comentadores em estúdio) e da RTP Informação (opção quase imposta pela obrigação de serviço público).

Embora o processo eleitoral não esteja, directamente, relacionado com Portugal, a opção, de dois dos três canais informativos portugueses, justifica-se, perfeitamente, com o impacto que o sufrágio norte-americano terá, por exemplo, na economia mundial.

PS – Ao invés, a TVI 24 optou por passar a repetição do programa Prolongamento.

Zerozero – o melhor amigo dos jornalistas

Nasceu, há precisamente nove anos, o Zerozero: a melhor base de dados sobre futebol feita em Portugal (e por portugueses). Não estarei, seguramente, a exagerar se disser que esta plataforma é, actualmente, a principal ferramenta de apoio de centenas (ou mesmo milhares) de jornalistas que fazem desporto em Portugal.

Foi, desde sempre, encarado como um projecto rigoroso, consciente das suas próprias limitações e, talvez por isso, tenha alcançado a abrangência que hoje tem. Começou como um “simples” banco de informações, mas, à medida que foi ganhando raio de acção, foi introduzindo a vertente noticiosa e, neste aspecto, já ganhou o respeito da plateia.

Recentemente, voltou a inovar, introduzindo a agenda zerozero, numa tentativa de abrir “uma nova perspectiva no acesso a informações relacionadas com o dia-a-dia do Mundo do futebol, com todas as informações sobre datas e horas de jogos ou fases de competições, conferências de imprensa, sorteios, transmissões televisivas, treinos e estágios de equipas, etc., permitindo não só o acesso a esta informação no nosso portal, mas também a exportação para a sua ferramenta de agenda (Google, Outlook, etc.)”.

Face ao contexto de crise generalizada, este é, seguramente, um projecto que faz valer a máxima: uma boa ideia executada por pessoas competentes tem tudo para ter ter sucesso. Parabéns pelos nove anos de existência.

Into­xi­ca­ção infor­ma­tiva

Durante a noite de ontem chegou ao Diário de Notícias da Madeira uma dica que apontava no sentido de antigo secretário regional do Equipamento Social da Madeira, Luís Santos Costa, ter sido detido pela Polícia Judiciária.

Tomando essa fonte por segura (e aparentemente será), o título, propriedade da Controlinveste, accionou, desde logo, diversos mecanismos para confirmar a sua autenticidade e, caso se verificasse, avançar para publicação.

A informação chegou à RTP (não pela mesma fonte mas por um elo comum) que, através do seu canal informativo, avançou para um directo (cheio de nada), nitidamente na ânsia de dar a notícia em primeira mão.

A partir daqui desencadeou-se o efeito corrente: o DN Madeira não esperou pela confirmação e postou no online, da mesma forma como fizeram a Rádio Renascença (ver aqui), o Diário de Notícias, etc., etc., etc., sem (aparentemente) se darem ao trabalho de cruzar a informação.

Resultado: a) o visado não estava detido (ao que parece estava por casa a assistir ao directo da RTP Informação); b) alguns optaram por eliminar a notícia das suas edições online; c) outros limitaram-se a colocar o desmentido (como se pode ver aqui)

Moral da história: O circuito informativo deve obedecer aos seguintes critérios: recepção da informação – análise e tratamento dos dados – confirmação ou cruzamento de fontes – publicação. Saltando algum destes passos, a predisposição ao erro é consideravelmente maior.

Fantasmas da imprensa desportiva

É comummente aceite, tanto na comunidade científica como na praça pública, que a imprensa especializada em desporto, vulgarmente denominada imprensa desportiva, convive com diversos demónios: uso e abuso de fontes anónimas, dilemas editoriais/comerciais, diferenças de tratamento entre instituições (clubes), textos redondos e, talvez o mais grave, pouca fiabilidade noticiosa.

Relativamente a outras editorias (economia, política, etc.) é incomparavelmente maior o número de notícias que não se confirmam (logo, não-notícias) e que, inclusivamente, chegam a receber honras de primeira página.

Para agravar todo o cenário, os leitores deparam-se, ainda, com diferenças abismais na análise objectiva (tendo em conta que existem imagens e regras que penalizam as infracções) dos lances problemáticos dos jogos de futebol.

Senão, veja-se as diferentes posições relativamente aos dois lances de grande penalidade no clássico disputado ontem entre Futebol Clube do Porto e Sporting Clube de Portugal:

Jornal A Bola: “Ia muito bem a arbitragem quando Jorge Sousa decidiu que o Sporting haveria de ter razão nalgum ponto do seu festival de protestos… E deu-lhe pormaior: no penalty ao minuto 83, o que houve foi teatro de Martínez“.

Jornal Record:  “(o árbitro) está muito bem posicionado nos dois lances mais polémicos do jogo e não se pode dizer que tenha ajuizado mal nas duas grandes penalidades que assinalou”.

Jornal O Jogo: “Tribunal (composto por três (ex-árbitros) especialistas em arbitragem) unânime: penálti por mão de Cédric (o 1º) mal marcado”.

Não existe nenhum (!) ponto de contacto entre posições dos três desportivos portugueses. Afinal, em que é que ficamos?

Ao contrário

As comemorações oficiais do 5 de Outubro, dia da Implantação da República, ficaram marcadas pelo hastear da bandeira nacional com o escudo ao contrário.

O Jornal I (e bem,) exercendo um papel interventivo no Espaço Público, aproveitou a ocasião para demonstrar, a quem ainda tinha dúvidas, que, afinal, ainda havia espaço para mais um jornal diário em Portugal, optando por uma primeira página cheia de simbolismo.

 

 

20 anos SIC

A SIC promoveu, ao longo do dia de hoje, uma emissão especial a assinalar o seu vigésimo aniversário. Além de recordar as duas décadas de existência, a estação de Carnaxide aproveitou a ocasião para relançar a sua marca e, por conseguinte, marcar posição junto dos anunciantes (um mercado cada vez mais deficitário).

Uma maratona de oito horas em directo, com enfoque especial nas diferenças  sociais, culturais e tecnológicas de há 20 anos, que contou com a autenticidade de todos os pesos pesados do canal: Francisco Pinto Balsemão em Alta Definição, Rodrigo Guedes de Carvalho, Clara de Sousa, Maria José Ruela, Bento Rodrigues, Pedro Mourinho e Ana Lourenço.

Sob o ponto de vista estratégico, esta celebração acontece no momento exacto – final do Verão, aproximação à TVI no ranking de audiências, etc… – contribuindo para afastar a neblina que pairava desde o recente caso Mário Crespo/RTP e que, (in)directamente, atingia a estação.

O ponto negativo dos festejos foi a ausência total (física e espiritual) de um dos principais mentores do projecto: Emídio Rangel.

Página comemorativa dos 20 anos da SIC