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Cidadão em directo

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A tese do “Jornalismo de Cidadão”, ou “Jornalismo Participativo”, está longe de ser consensual. Há quem defenda que basta um computador com ligação à internet e uma câmara fotográfica (ou, simplesmente, um smartphone) para presenciar, in loco, um acontecimento e, em seguida, difundi-lo através das inúmeras ferramentas disponíveis.

Confesso que não me revejo nesta postura. O cerne da questão não está na (in)capacidade do cidadão anónimo servir de intermediário entre o leitor e o facto noticioso, mas, fundamentalmente, no domínio das técnicas jornalísticas, na obrigatoriedade de se reger por um código deontológico e no conhecimento da postura editorial do media que representa.

Não quer isto dizer, no entanto, que o cidadão tenha que ser banido do circuito mediático. Até porque é ele que assegura a existência dos media. É, realisticamente, impossível conceber um cenário em que os jornalistas são capazes de acompanhar tudo, principalmente num contexto em que as redacções estão presas por arames. Liberta-se,assim, um “espaço de ninguém” que pode (e deve) ser ocupado pelo leitor na qualidade fonte informativa.

Foi o que fez ( e bem!) a Patrícia: uma passageira que seguia a bordo do comboio Intercidades que chocou com um Regional, na Granja do Ulmeiro, em Soure, e que descreveu, ao minuto na sua página do twitter, o que presenciava. Foi uma espécie de ligação wireless entre a comunidade e o centro nevrálgico das operações.

A Patrícia cumpriu a sua missão ao alimentar os seus seguidores e ainda serviu de fonte para os jornais citarem nas suas edições online (como fez aqui o Jornal de Notícias). Já os leitores (ouvintes ou telespectadores) têm que ser alimentados por jornalistas sob pena de não existir qualquer diferença entre fonte e receptor. É por isso que o cidadão é sempre uma óptima fonte. Nunca jornalista!

Into­xi­ca­ção infor­ma­tiva

Durante a noite de ontem chegou ao Diário de Notícias da Madeira uma dica que apontava no sentido de antigo secretário regional do Equipamento Social da Madeira, Luís Santos Costa, ter sido detido pela Polícia Judiciária.

Tomando essa fonte por segura (e aparentemente será), o título, propriedade da Controlinveste, accionou, desde logo, diversos mecanismos para confirmar a sua autenticidade e, caso se verificasse, avançar para publicação.

A informação chegou à RTP (não pela mesma fonte mas por um elo comum) que, através do seu canal informativo, avançou para um directo (cheio de nada), nitidamente na ânsia de dar a notícia em primeira mão.

A partir daqui desencadeou-se o efeito corrente: o DN Madeira não esperou pela confirmação e postou no online, da mesma forma como fizeram a Rádio Renascença (ver aqui), o Diário de Notícias, etc., etc., etc., sem (aparentemente) se darem ao trabalho de cruzar a informação.

Resultado: a) o visado não estava detido (ao que parece estava por casa a assistir ao directo da RTP Informação); b) alguns optaram por eliminar a notícia das suas edições online; c) outros limitaram-se a colocar o desmentido (como se pode ver aqui)

Moral da história: O circuito informativo deve obedecer aos seguintes critérios: recepção da informação – análise e tratamento dos dados – confirmação ou cruzamento de fontes – publicação. Saltando algum destes passos, a predisposição ao erro é consideravelmente maior.