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Futebol: informação ou entretenimento?

A TVI, televisão detentora dos direitos de transmissão da Liga dos Campeões, escalou, para o Manchester UnitedReal Madrid, uma equipa formada por dois comentadores, Pedro Barbosa e Dani (ambos ex-futebolistas), e um narrador, Pedro Ribeiro (animador da Rádio Comercial).

A questão em torno da equipa escalada para o jogo não se centra, como é obvio, na escolha das figuras encarregues de comentar o jogo, até porque são profundos conhecedores do fenómeno, mas na entrega do papel de narrador a um  não-jornalista que, poucas horas antes, num programa de rádio, aconselha a audiência a ser cliente da  TMN e a consumir  Kit Kat.

A situação é particularmente complexa se se tiver em linha de conta que, à semelhança do que acontece na imprensa, num relato de futebol, o narrador é uma espécie de primeiro filtro dos olhos do telespectador. É, por isso, uma função que exige rigor, distanciamento e isenção, até porque está umbilicalmente ligada a valores éticos e deontológicos fortes.

«O exercício da profissão de jornalista é incompatível com o desempenho de Funções de angariação, concepção ou apresentação de mensagens publicitárias».

Interessa, neste enquadramento, clarificar se a narração de um jogo de futebol, seja em rádio ou televisão, deve, ou não, constituir matéria de cariz informativa.

A questão, sublinhe-se, não é recente e tem origem na constituição das primeiras redacções em Portugal. À data, como é fácil imaginar, não se falava em jornalismo especializado, como se faz hoje, e o noticiário de desporto vivia, essencialmente, de colaborações externas, a maioria proveniente dos próprios desportistas que queriam divulgar os seus feitos individuais ou colectivos.

Sobretudo por isto, os profissionais que acompanhavam desporto não tinham lugar nas redacções, como as restantes editorias (política, economia,  etc.) , nem, tão pouco, eram considerados jornalistas. Limitavam-se a ser uma espécie de apêndices da redacção.

O paradigma, entretanto, alterou-se, mas o preconceito ainda permanece. Em menor dimensão, é certo, mas está longe de estar extinto. Para a mudança em muito contribuiu o papel que o futebol (a reboque dos clubes) foi conquistando na sociedade civil.

Tanto que, actualmente, quem tem futebol tem, automaticamente, números garantidos (vendas, audiências ou visitas). No entanto, esta massificação do noticiário desportivo acarretou consigo a responsabilidade de corresponder às exigências de uma audiência, normalmente entendida na matéria, e levou à especialização profunda dos jornalistas de desporto.

Até porque hoje um jogo de futebol é muito mais do que uma bola e onze jogadores: tem um enquadramento, equipas com identidades próprias, jogadores com uma história atrás de si, treinadores, evoluções tácticas e ligações comerciais. Tudo isto é demasiada informação para se considerar um mero produto de entretenimento.

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Conflito de interesses

O jornalismo desportivo é, muitas vezes, posto em causa por anunciar tudo e o seu contrário, por misturar opinião com informação e, sobretudo, por estar demasiado colado ao entretenimento. Mas há mais: veja-se, por exemplo, o caso da mais célebre jornalista de Espanha: Sara Carbonero.

São vários os episódios, no mínimo, constrangedores na ainda curta carreira da espanhola, mas, talvez, o mais mediático seja o beijo a Iker Casillas (seu namorado) depois da final do Mundial da África do Sul.

Ainda assim, Carbonero não pára de surpreender: um dia antes do clássico entre Real Madrid e Barcelona, a jornalista da Telecinco surgiu a comentar a actualidade do emblema madrileno e confirmou uma quebra no balneário entre José Mourinho e os jogadores.

O episódio não teria nada de espectacular, não fosse a apresentadora a actual companheira do capitão e guarda-redes do…. Real Madrid(!), o que, convenhamos, cria um, enorme, conflito de interesses.

Ainda assim, a culpa não é, unica e exclusivamente, de Sara. Quem a coloca perante semelhante constrangimento não pode ficar inocente. Até porque dá a sensação que, mais importante do que todas as condutas éticas e deontológicas,  são as audiências. E o bom-senso que se dane.